MÃE-GALINHA



2007-10-31

Do meio ou, tenho uma filha ensanduichada

Escreve coisas como "eu não sou uma estrela mas ilumino caminhos" ou "eu não sou um avião mas consigo voar" no remate das redacções dadas em tpc pela professora que agora substitui a de sempre e que recupera duma reconstrução mamária (da qual se fala na escola em sussurro, entre dentes, como se a senhora tivesse ido extrair sacos de droga do intestino).

Tem má fama, esta nova professora, e eu, cheia de boas intenções:
- Tu vê lá,Inês! Se a professora S. gritar ou andar por lá a bater nos miúdos, tu diz-me!
Não medi a frase. À Inês não se pode dar uma oportunidade destas. Este seria o motivo perfeito para ser mais popular e eu nem tinha pensado nisso.
Claro que ao fim do dia já a escola inteira sabia do tabefe. Nem foi preciso passar do portão para a amiga da amiga da amiga da amiga me vir contar. A popularidade estava alcançada. Mas eu não percebi.

Duvido que quem não tem filhos saiba o que é isto de sentir uma coisa crescer dentro de nós, uma raiva, um ardor nas entranhas. Galguei dois lances de escadas e disse o que tinha a dizer. Depois fui respirar para a rua e regressei passada meia hora para pedir desculpa, que se calhar eu estava a exagerar, que a miúda podia estar a exagerar.
- De qualquer maneira vou falar com ela - disse a coordenadora da escola

Um ou dois dias depois fui apanhada pela tal professora e confrontada com o facto da Inês poder estar a mentir. Coisa que, claro, já me tinha passado pela cabeça. Sou mãe-galinha mas não sou parva.
Primeiro irritou-me a prepotência.
Depois irritou-me o falar serrano.
Depois irritou-me não me deixar falar.
Depois disse-lhe que iria falar com a Inês mas que, fosse qual fosse o desfecho, não ia admitir a mínima retaliação.

A Inês estava, de facto, a mentir. Admitiu-o entre lágrimas. Tivemos uma conversa séria e no dia seguinte fomos de mão dada pedir desculpa à professora. Foi nesse dia que deixei desapertar o nó.

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