MÃE-GALINHA



2005-03-09

PALMADAS E OMNIPRESENÇAS

Sem fundamentalismos, se é absolutamente necessário, sai uma palmada. É raro mas acontece e só o faço quando a situação é deveras grave e a capacidade de entendimento dela(s) foge a qualquer tentativa de racionalização. Não me sinto má mãe por isso.

Um fim de tarde mais calmo que o habitual, com o pai a chegar cedo a casa e o jantar quase pronto. Tempo extra, coisa rara! As mais velhas enfiadas no quarto a brincar. Não sei a que brincaram, eu aproveitei o tal tempo para apanhar e estender roupa, regar o jardim e outros afazeres.
Desceram as escadas e entraram na cozinha. Ralhei, pelo facto de ter tido que as chamar mais do que três vezes. Três é o número que limita a minha paciência.
Acredito que a minha cara fosse de poucos amigos mas não era preciso ser chamada á razão desta forma:
- Olha mãe, se me bateres,estás a bater em Jesus.
- Ãããããhhh?!
- Pois, Jesus está em todo o lado por isso se me bateres estás a bater em Jesus.
- Quem é que te ensinou isso? És alguma enviada?
(Eu sempre achei que sim!)
O pai dava o jantar a Carminho e sorria. A Maria aprovava com o olhar a prosa da irmã.
- E tu bates-me muito, mãe!
- Estás doida, Inês? Eu????
- Sim! E quando me bates estás a bater em Jesus...
- Olha menina, eu não te bato muito coisíssima nenhuma e se às vezes te dou uma palmada é a ti e a mais ninguém.
Aqui entra a Maria, do alto da sua sabedoria dos seis anos e explica-nos, mais uma vez, a omnipresença de Jesus. De nada valeu a minha tentativa de contra-informação, que Jesus foi um homem, um homem especial, e que Deus é uma luz, e a luz, essa sim, está em todo o lado.
Jantámos e fui deitá-las. Desci para a cozinha, arrumei a loiça e vi televisão. Antes de me deitar fui espreitá-las. Havia um volume extra na almofada da Inês. Um livro, é o costume. Tirei-o e fui arrumá-lo. Era a bíblia para crianças.
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© Rita Quintela
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